Curiosidade Mórbida – Audiência sobe em blogs e redes sociais quando o assunto é “morte” por quê?

junho 22, 2009 | Acidentes, América do Norte, América do Sul, Apresentadora, Asia, Ator, Atriz, Automobilismo, Aviação, Biologia, Bizarro, Blogs, Blogueira, Brasil, Cantor, Cantora, Celebridade, Comportamento, Dançarina, DJ, EUA, Europa, Flagrantes, Foto, Humoristas, Incidentes, Internacional, Internet, Jogador, Medicina, Mundo, Nova Zelândia, Oceania, Polícia, Saúde, Saúde Pública, Terrorismo, Trânsito, Videos, YouTube

Foto-Elaine-Santos-ganhou-700-seguidores-no-Twitter-apos-acharem-que-ela-estava-no-voo-447-da-Air-FranceBlogueira ganhou 700 seguidores no Twitter após rumores de sua morte.
Internautas também usam Orkut como nova forma de encarar o luto.

No começo do mês, a blogueira Elaine Santos ganhou em apenas dois dias mais de 700 seguidores no Twitter. O motivo não foi uma promoção imperdível anunciada no perfil ou frase genial criada por ela no microblog, mas sim uma viagem à França: como ela embarcou no dia 31 de maio, muitos acharam que Lalai, de 36 anos, estava entre as vítimas do acidente com o voo 447 da Air France. Por isso, passaram a segui-la no Twitter que, ao contrário do Orkut, não exige autorização para adicionar novas pessoas.

Apesar de a internet já ser bastante usada para manter viva a lembrança de pessoas mortas, esse caso atraiu particularmente o interesse da comunidade virtual. Foi uma das primeiras manifestações desse tipo no Twitter e ainda deixou no ar a questão: para que passar a seguir um novo perfil se, teoricamente, ele nunca mais será atualizado?

 

“Acho que as pessoas me acrescentaram porque têm curiosidade mórbida. Pouco mais da metade me adicionou antes de eu dar qualquer sinal de vida e, aí, pode haver dois motivos. Elas queriam ter notícias posteriores a meu respeito ou a sensação de proximidade de alguém que estava em um acidente que causou comoção mundial”, afirmou o ao G1.
Lalai não sabe precisar se, depois que descobriram que estava viva, os novos seguidores debandaram. De qualquer forma, ela acredita que vem ganhando mais “followers” do que antes do acidente: os então 2,8 mil somam agora mais de 3,7 mil.

Maria Helena Pereira Franco, coordenadora do laboratório de estudos e intervenções sobre o luto da PUC-SP, explica que atualmente muitas pessoas usam a internet como uma forma de expressar a perda. “Uma manifestação pós-moderna do luto”, como ela mesma define. Para a especialista, o fato de alguém visitar o perfil virtual de mortos pode ser uma tentativa de dar continuidade à relação interrompida. 

O estudante Erik Wiliam Lopes, de 14 anos, passou por situação parecida com a de Lalai, mas no Orkut. Após um desconhecido divulgar na rede de relacionamentos que o jovem havia morrido, ele recebeu cerca de 200 recados no estilo “descanse em paz”. Além disso, teve diversas solicitações de pessoas que tentavam adicioná-lo, mesmo achando que o estudante estava morto. “Ri muito dessa história. Tentei descobrir o motivo [de divulgarem sua morte], mas até hoje não sei o por quê”, contou ao G1.

Luto na web
O psiquiatra Marcelo Feijó de Mello, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), afirma que a internet vem sendo usada com cada vez mais frequencia para homenagear os mortos. Desde que esse tipo de ação não seja exagerada, ele não classifica como algo mórbido: “em geral, a morte é um assunto que realmente atrai o interesse do ser humano”.

Daí tanta atenção dispensada pelos internautas aos dados digitais que continuam disponíveis depois da morte de seus “donos”. Fotos no Flickr, perfis no Twitter, páginas abarrotadas de informações no Orkut, registro de trocas de mensagens em vida e também de monólogos digitados por conhecidos após a morte estão a alguns cliques de distância – seja para matar a saudade de alguém querido ou saciar a curiosidade sobre a partida de um completo desconhecido.

Mello afirma que, de certa forma, esses sites podem manter uma pessoa virtualmente viva. “A imagem e informações dela persistem, como se não tivesse morrido. Além disso, as visitas e mensagens postadas continuam movimentando aquela página”, explica. O psiquiatra considera essa prática saudável desde que as pessoas que sofreram a perda realmente entendam que o perfil funciona apenas como um elo virtual, e não real, com aqueles que partiram.

Precavidos
Sabendo (e já tendo sido “vítima”) do interesse dos internautas pela morte, Lalai — a blogueira do começo da reportagem — tomou providências há tempos, caso algo aconteça com ela. Seu melhor amigo e uma amiga têm as senhas para deletar os perfis em todas as redes sociais nas quais está cadastrada. Devem deixar no ar apenas o blog e suas fotos, mas sem comentários ativos: “acho meio surreal o tipo de mensagens que as pessoas deixam”.

Já Erik, que morreu virtualmente no Orkut, também não gostaria que seu perfil fosse mantido. “Apesar de ser um lugar para as pessoas se lembrarem de mim, uma marca minha, gostaria que ele fosse apagado. O Orkut é para gente viva, não um cemitério virtual”, afirma. Sua opinião contradiz a proposta da comunidade Perfil de Gente Morta, freqüentada pelo próprio Erik e onde ele mesmo divulgou que não havia morrido.

Grupos no estilo de “Perfil de Gente Morta” estão cheios de mensageiros que anunciam a causa da morte e publicam o perfil do falecido, alimentando assim a curiosidade dos internautas. “Acidente de moto”, “acidente de carro”, “acidente de avião”, “suicídio”, “morreu no baile”, “morreu no parto” e “fatalidade” são alguns dos tópicos. Já nos perfis, as mensagens vão desde aquelas deixadas por amigos íntimos até os “descanse em paz” e “vá com deus” dos bisbilhoteiros.

Foto-Felipe-Torres-senhas-da-internet-para-amigos-de-confiancaHerança
A ideia de “cemitério virtual” desagrada o designer e jornalista Felipe Torres, de 23 anos, que, assim como Lalai, já passou as senhas para amigos de confiança. Com a combinação secreta, também distribuiu tarefas. “Gostaria que eles deletassem meu Orkut para que não virasse um perfil fantasma, de alguém que morreu. Já o Twitter e meu blog poderiam continuar sem mim. Seria uma forma de eu continuar digitalmente vivo, fazer parte do universo on-line mesmo após o fim da vida.”

Felipe diz ter curiosidade em saber o que acontecerá com as informações referentes a ele na internet depois de sua morte. “Com o tempo, pode ser que tenha mais coisas sobre mim depois de morto do que vivo. Seria como um permanente velório digital. É bem esquisito, mas curioso.”

Interessado no assunto, ele escreveu recentemente um post sobre herança digital. “A não ser que o céu tenha Wi-Fi, o que será que acontece com nossas contas, perfis e cadastros quando morremos? Não há como atualizar. Você está morto, óbvio, e seus amigos não sabem a senha. Então você fica lá, vivo para a memória do Google, cheio de scraps pornográficos de spams malditos no seu Orkut. A sua reputação fica cada vez mais imunda e as pessoas começam a duvidar se você realmente morreu ou se apenas não tem mais dinheiro para pagar o Speedy”, brinca.

Ajuda
Além de cenário para homenagear os mortos e saciar a curiosidade (e/ou morbidez) dos internautas, as redes sociais são utilizadas para troca de informações entre aqueles que perderam pessoas queridas. A dona de casa Adriana Novas, de 37 anos, criou uma comunidade para conversar com pessoas que passaram pelo mesmo problema que ela: a perda de uma filha. Naiara morreu em 2006 vítima de uma complicação de saúde, quando tinha três anos.

“Minha filha mais velha me cadastrou no Orkut e decidi criar uma comunidade para trocar experiência com pessoas que passavam pela mesma situação. Em casos como esse, é preciso conversar com aqueles que entendem o problema: quem não viveu essa experiência não imagina como ela é”, conta Adriana, também mãe de Hanna, 17, e Naiana, 6. “O Orkut me ajudou muito a encarar a perda, assim como minha fé.”

Segundo ela, a comunidade foi importante para ver que outras pessoas também passam pelo mesmo tipo de sofrimento. “Enquanto conversamos, há muitas mães desesperadas por aí”, afirmou durante a entrevista por telefone ao G1. “Se for usada da maneira correta, a internet é um ótimo espaço para fazer amizade e encontrar solidariedade”, conclui a dona de casa.

Fonte: G1

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